Strengthening Families Program (SFP)

Resumo

Avaliação: Estudos adicionais necessários
País de origem: Estados Unidos da América
Última revisão: 17.04.2024
Idade: 10-13 anos
Grupo-alvo: Jovens de 12 a 14 anos e suas famílias
Contexto de implementação do programa: Escolas
Nível(is) de intervenção: Comunidade; família

O Strengthening Families 10-14 (SFP) é um programa para famílias com jovens adolescentes que tem como objetivo fortalecer a proteção familiar e os processos de construção de resiliência e reduzir o risco familiar relacionado ao uso de álcool, tabaco e outras drogas por adolescentes, assim como outros comportamentos de risco. O programa consiste em sete sessões, ministradas semanalmente com a duração de duas horas cada, e incluem o desenvolvimento de habilidades para pais e filhos separadamente, seguidas de uma sessão familiar em que pais e filhos praticam as habilidades que aprenderam de forma independente, trabalham na resolução de conflitos e na comunicação e se envolvem em atividades para aumentar a coesão familiar e a participação positiva dos filhos na família.

Os pais são ensinados a esclarecer as expectativas com base nas normas de desenvolvimento infantil em relação ao uso de substâncias psicoativas por adolescentes, a usar práticas disciplinares adequadas, a gerenciar emoções fortes em relação aos filhos e a se comunicar de forma efetiva. As crianças aprendem habilidades de recusa para ajudá-las a lidar com a pressão dos colegas e outras habilidades de interação pessoal e social. Essas sessões são realizadas por equipes de três pessoas e incluem uma média de oito famílias por sessão.

É uma intervenção de treinamento de habilidades familiares baseada em evidências científicas, desenvolvida e considerada efetiva por pesquisadores norte-americanos na década de 1980, para a prevenção do uso de substâncias psicoativas. Na década de 1990, foi desenvolvido um processo de adaptação cultural para traduzir e adaptar o programa para populações cultural e socialmente diversas. Desde 2003, o SFP foi adaptado para uso em vários países, e o processo de adaptação cultural é altamente recomendado para que programas baseados em evidências possam ser replicados, sem comprometer a sua fidelidade e a efetividade (Kumpfer et al., 2008).

O Strengthening Families Programme, desenvolvido por Karol Kumpfer, foi adaptado e avaliado em vários países europeus, inclusive Alemanha (Baldus et al. 2016; Bröning et al., 2017), Polônia (Foxcroft et al., 2017), Reino Unido (Moore, 2009; Segrott et al. 2022 e Suécia (Skärstrand et al. 2014; Jalling et al., 2016), com resultados variados. Enquanto na Alemanha foi observada uma redução significativa no tabagismo entre os participantes do grupo SFP 10-14, em comparação com o grupo de controle, na Polônia não foram encontrados efeitos significativos em relação ao uso de álcool e outras drogas. No Reino Unido, não foram observadas diferenças estatisticamente significativas no consumo de álcool entre os participantes do programa e o grupo de controle no acompanhamento de 24 meses. Na Suécia, não foram observados efeitos significativos no tabagismo, no uso de álcool ou drogas ou no comportamento problemático, o que sugere possíveis problemas de implementação ou diferenças culturais.

Visão geral dos resultados dos estudos da América Latina

  • Versões avaliadas: Familias Fortes (Brasil), Familias fuertes: amor y límites (Colombia, Chile).

Em 2003, o Iowa Strengthening Families Program (ISFP), da Universidade Estadual de Iowa nos Estados Unidos, foi adaptado à realidade social e cultural da Região das Américas pela Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial de Saúde (OPAS/OMS), que selecionou esse programa, denominado “Famílias  Fortes: amor e limites”, como modelo de intervenção para implementação em famílias com objetivo de melhorar a comunicação intrafamiliar, fortalecer a convivência em casa e desenvolver habilidades parentais para mitigar fatores de risco, como por exemplo, o uso de drogas na adolescência.

Nos últimos anos, diversos países da América Latina adotaram o programa, incluindo Peru, Colômbia, Brasil, Costa Rica, México, República Dominicana, Uruguai, Honduras, Equador, Panamá e Chile.

Essa iniciativa, embora amplamente implementada, até o presente momento, não foi avaliada por meio de metodologias científicas robustas para a avaliação de sua efetividade, em muitos desses países.

Durante os anos de 2012 e 2013, foi realizado um estudo pré-experimental para avaliação da implementação do programa na Bolívia, Colômbia e Equador. Este estudo teve como objetivo avaliar o impacto do programa sobre as práticas parentais, com foco na prevenção e redução da prevalência de comportamentos prejudiciais à saúde entre adolescentes. Os resultados relataram uma melhoria significativa na "parentalidade positiva" e uma redução na "hostilidade parental" (Orpinas et al., 2014).

No Chile, o programa "Famílias Fortes", desenvolvido pela OPAS/OMS, foi avaliado em um estudo quasi-experimental (Correa et al., 2012) com 120 famílias, visando ajustar os estilos parentais para reduzir comportamentos de risco em adolescentes. Os resultados mostraram mudanças significativas nos estilos parentais dos participantes após seis meses de intervenção, com menos comportamentos negativos. No entanto, não houve mudanças nos comportamentos de risco dos adolescentes, como consumo de álcool e drogas, ou comportamentos sexuais de risco. 

Na Colômbia, um estudo também quasi-experimental (Castaño-Pérez et al., 2020) envolvendo 376 famílias foi conduzido. As famílias foram avaliadas antes da intervenção, 12 e 18 meses após a intervenção. Os resultados mostraram que houve mudanças significativas nas habilidades parentais (atitudes em relação aos comportamentos de risco do filho, manifestação de afeto, demonstração de apreço, melhora na comunicação, funcionalidade familiar, envolvimento do pai nos objetivos do filho e participação dos pais na vida do adolescente) após a intervenção, mas nenhum impacto observado nos comportamentos de risco dos adolescentes. 

No Panamá, como parte da iniciativa da OPAS/OMS de adaptar programas para o contexto latino-americano, o programa Famílias Fortes foi revisado pelo Escritório das Nações Unidas para Drogas e Crime - UNODC para se alinhar com a cultura local e está sendo implementado desde 2009. Um estudo controlado e randomizado está em andamento para avaliar seu impacto na redução de comportamentos agressivos e hostis em jovens, conforme relatado por pais e adolescentes. Este estudo também visa analisar o processo de implementação do programa e examinar a fidelidade da implementação e a relação custo-benefício do programa no país (Mejia et al., 2018). 

No Brasil, entre 2013 e 2015, o programa Famílias Fortes, passou por um processo de adaptação cultural à população brasileira e por uma avaliação inicial de adequação cultural, revelando percepção positiva da população brasileira e recomendações para adaptação cultural (Murta et al., 2018). Além disso, a validade social do programa foi avaliada (Murta et al., 2020), mostrando que os objetivos são considerados socialmente relevantes, com percepção de impacto positivo na coesão familiar e no estilo parental. Um estudo pré-experimental (Murta et al., 2021) revelou efeitos mistos do programa, incluindo aumento da auto eficácia dos jovens para a leitura, mas também aumento das faltas escolares sem permissão dos pais. 

Em 2019, o programa Famílias Fortes começou a ser implementado como uma política pública no Brasil, e foi avaliado por um  estudo controlado e randomizado de dois braços, com grupos paralelos (Sanchez et al., 2024), com o objetivo de aferir o seu efeito de curto prazo em prevenir o uso de drogas entre adolescentes e melhorar os comportamentos parentais. Esse estudo, embora tenha mostrado melhorias nos comportamentos parentais, não demonstrou efeitos no uso de drogas entre os adolescentes. 

Esse efeito perdurou por um período mais longo, avaliado em estudo de acompanhamento de 12 e 24 meses (Sanchez et al., XXXX). Além disso, esse estudo apresentou um resultado positivo na redução no consumo excessivo de álcool pelos pais, embora não tenha se mostrado eficaz na redução do uso de substâncias entre os adolescentes.

Outro estudo paralelo (Santos et al., XXXX), realizado com a mesma amostra de adolescentes e cuidadores, investigou o papel mediador das práticas parentais na redução do consumo de álcool, cigarro e inalantes entre os adolescentes. Foi observado que as práticas parentais, incluindo disciplina não violenta, estilo parental e exposição ao consumo excessivo de álcool pelos pais, desempenharam um papel mediador significativo no efeito do programa Famílias Fortes. Embora o programa não tenha tido impacto direto nos adolescentes, sua influência positiva sobre as práticas parentais contribuiu para a prevenção do uso de substâncias entre os adolescentes, destacando a importância do papel dos pais na promoção de comportamentos saudáveis em seus filhos.

Referências

Corea V, M. Loreto, Zubarew G, Tamara, Valenzuela M, M. Teresa, & Salas P, Francisca. (2012). Evaluación del programa "Familias fuertes: amor y límites" en familias con adolescentes de 10 a 14 años. Revista médica de Chile, 140(6), 726-731. https://dx.doi.org/10.4067/S0034-98872012000600005.

Castaño-Pérez, G., Salas, C. & Buitrago, C. Evaluation of the Prevention Program: “Strong Families: Love and Limits” in Colombia. Int J Ment Health Addiction 18, 459–470 (2020). https://doi.org/10.1007/s11469-019-00218-7.

Sanchez ZM, Valente JY, Gubert FA, Galvão PPO, Cogo-Moreira H, Rebouças LN, Dos Santos MHS, Melo MHS, Caetano SC. Short-term effects of the strengthening families Program (SFP 10-14) in Brazil: a cluster randomized controlled trial. Child Adolesc Psychiatry Ment Health. 2024 Jun 6;18(1):64. doi: 10.1186/s13034-024-00748-6. PMID: 38845002; PMCID: PMC11157859.

Sanchez, Z. M.  et al. Does the Brazilian version of the Strengthening Families Program (Familias Fortes) Reduce Adolescent Substance Use and improve parental behavior? A 2-Year Follow-Up. (XXXX). Pre-print. Under review.  

Santos, M.S. et al. Parental practices as mediators of the effect of a family-based program on the prevention of substance use among Brazilian adolescents. (XXXX). Drug and Alcohol Dependence. Pre-print. Under review.  

Referências que não foram incluídas no processo de avaliação

Kumpfer KL, Pinyuchon M, Teixeira de Melo A, Whiteside HO. Cultural adaptation process for international dissemination of the strengthening families program. Eval Health Prof. 2008 Jun;31(2):226-39. doi: 10.1177/0163278708315926. PMID: 18448857.

Orpinas P, Ambrose A, Maddaleno M, Vulanovic L, Mejia M, Butrón B, Gutierrez GS, Soriano I. Lessons learned in evaluating the Familias Fuertes program in three countries in Latin America. Rev Panam Salud Publica. 2014 Dec;36(6):383-90. PMID: 25711749.

Mejia, A., Emsley, R., Fichera, E. et al. Protecting Adolescents in Low- And Middle-Income Countries from Interpersonal Violence (PRO YOUTH TRIAL): Study Protocol for a Cluster Randomized Controlled Trial of the Strengthening Families Programme 10-14 (“Familias Fuertes”) in Panama. Trials 19, 320 (2018). https://doi.org/10.1186/s13063-018-2698-0.
 

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