Unplugged (#Tamojunto)
Resumo
Avaliação: Potencialmente prejudicial
País de origem: Itália
Última revisão: 03.04.2024
Idade: 11-14 anos
Grupo-alvo: Crianças e adolescentes de 11 a 14 anos de idade
Contexto de implementação do programa: Ambientes escolares
Nível(is) de intervenção: Prevenção universal
O Unplugged é um programa de prevenção para adolescentes de 11 a 14 anos que visa a retardar o início e interromper a progressão do uso de álcool, tabaco e outras drogas. É um programa escolar baseado no "Modelo Global de Influência Social" (Vadrucci et al., 2016) e visa desenvolver habilidades específicas para gerenciar influências sociais, desmitificar crenças normativas, fortalecer o pensamento crítico para refletir sobre os contextos de uso e ensinar sobre essas substâncias psicoativas e suas implicações para a saúde.
O programa consiste em 12 sessões de uma hora cada, ministradas semanalmente por professores de sala de aula que participaram anteriormente de um curso de treinamento de 16 horas.
Sua efetividade na redução do uso de substâncias psicoativas foi avaliada pela primeira vez em um estudo controlado e randomizado (Faggiano et al., 2008) em sete países europeus, realizado com 7.079 alunos de 12 a 14 anos de idade, que indicou efeitos positivos persistentes ao longo de 18 meses sobre o uso nocivo de álcool e maconha, mas não sobre o uso de tabaco.
Posteriormente, o programa também foi avaliado em um estudo prospectivo, randomizado e controlado na República Tcheca (Gabrhelik et al., 2012), no qual produziu efeitos positivos na redução do uso atual de tabaco e maconha em adolescentes de 11 a 13 anos e evitou um aumento na prevalência do uso de outras substâncias psicoativas, avaliadas dois anos após a intervenção.
Visão geral dos resultados dos estudos da América Latina
- Versões avaliadas: #Tamojunto (Brasil).
No Brasil, no ano de 2013, o Programa Unplugged (ainda em sua versão apenas traduzida para o português) foi submetido a uma primeira avaliação em um estudo de eficácia (não-randomizado), realizado em 16 escolas públicas, de três cidades brasileiras. Este estudo identificou um potencial efeito do programa em reduzir o uso recente de maconha e o consumo excessivo de álcool (binge drinking) por adolescentes (Sanchez et al., 2016). Em paralelo também foi realizada uma avaliação do processo de implementação do programa que identificou viabilidade para sua aplicação nas escolas públicas brasileiras (Medeiros et al., 2016).
Nos anos de 2014 e 2015, após um processo de “adaptação cultural”, foram feitas importantes mudanças de conteúdo nas aulas do programa, que passou a ser chamado de #Tamojunto. No processo de adaptações para o contexto brasileiro, e embora o formato e os tópicos originais tenham sido mantidos, foram identificadas grandes mudanças de conteúdo em três atividades centrais do programa original. Modificações significativas foram observadas, o conteúdo que garantia a abstinência de álcool foi omitido e os métodos e materiais de instrução foram substituídos por conteúdo que enfatizava a prevenção do consumo nocivo. Foram notadas também, a exclusão de atividades e, segundo alguns professores, diversas sessões foram dadas como inacabadas, com justificativas como falta de tempo, mau comportamento dos alunos e falta de motivação.
O Programa #Tamojunto, após realizadas as adaptações, foi então submetido a um novo ensaio controlado randomizado (Sanchez et al., 2017), em 72 escolas públicas de 6 cidades brasileiras, localizadas em 4 estados brasileiros, para avaliação de sua efetividade na prevenção do uso de álcool, tabaco, inalantes, maconha, cocaína e crack entre adolescentes de 11 a 15 anos de idade, e verificar assim, se o programa apresentaria no Brasil, efeitos semelhantes aos observados nos países europeus. Nesse estudo, foi identificado um possível efeito protetor do programa no primeiro uso de inalantes, indicando um atraso no primeiro uso dessas substâncias em 22% dos adolescentes. Para além, não foi identificado neste estudo, nenhum efeito na prevalência do uso de substâncias psicoativas no último mês e um possível efeito iatrogênico no primeiro uso de álcool, sugerindo um efeito de antecipação do uso de álcool nesses adolescentes, já que os adolescentes do grupo de intervenção apresentaram um risco 30% maior, 9 meses após a implementação do programa, para iniciarem o consumo de bebidas alcoólica, e um risco 13% maior, no estudo de avaliação do programa 21 meses após a intervenção (Sanchez et al., 2018), quando comparados aos adolescentes do grupo controle.
Além disso, no estudo controlado e randomizado de 21 meses de acompanhamento, nenhum efeito do programa foi encontrado para o consumo excessivo de álcool (binge), tabaco, maconha e inalantes.
Os efeitos negativos do programa, verificados mediante rigorosa avaliação, foram atribuídos a não aderência ideal ao programa e a adaptações de seus componentes centrais, como as alterações observadas no conteúdo relacionado ao consumo de álcool, onde estes foram substituídos por uma perspectiva ligada a redução de danos. Essa mudança de paradigma pode ser potencialmente responsável pelo aumento da probabilidade de iniciação ao consumo de álcool entre adolescentes brasileiros, como encontrado no ensaio clínico mencionado. Além disso, a baixa fidelidade da implementação pode ter comprometido a transmissão do conteúdo. Segundo Dusenbury et al. (2003), falhas na garantia da fidelidade da implementação e da dose projetada, podem vir a comprometer os resultados esperados de um programa.
Ainda no Brasil, e com esta mesma amostra do ensaio controlado randomizado, foi realizado um estudo paralelo (Gusmões et al., 2018) para avaliar o efeito do programa #Tamojunto sobre a prevalência de relatos de violência física e bullying em um período de 21 meses. Os resultados desse estudo demonstraram que o programa reduziu a probabilidade dos adolescentes do grupo intervenção de serem vítimas de bullying, particularmente as meninas de 13 a 15 anos. No entanto, esse efeito só foi encontrado na avaliação de 9 meses após a intervenção, não tendo sido sustentado na avaliação 21 meses de acompanhamento desses adolescentes. Corroborando com esses dados, análises secundárias (Cogo-Moreira et al., 2023) com esse mesmo grupo foram realizadas para investigação de como a implementação do programa poderia alterar a relação entre a violência e o uso posterior de substâncias psicoativas, e para a qual faltou evidências que demonstrem que o #Tamojunto é capaz de modificar a dinâmica entre o uso dessas substâncias e a violência escolar durante o período de 21 meses de acompanhamento.
Em outra análise (Reis et al., 2021), ainda com esta mesma amostra, examinou-se os efeitos do programa #Tamojunto sobre comportamentos sexuais de risco desses adolescentes. Esse estudo encontrou um efeito iatrogênico da intervenção sobre o envolvimento dos adolescentes em relações sexuais ao longo da vida, no acompanhamento de 21 meses. Além disso, o estudo sugeriu um possível efeito prejudicial do programa sobre as meninas, que relataram uma probabilidade maior de terem feito sexo no último mês, bem como de terem feito sexo sem proteção. Esses achados sugerem que o #Tamojunto pode ser ineficaz, e possivelmente prejudicial, para a prevenção de comportamentos sexuais de risco, especialmente entre as meninas.
E por fim, em uma quarta análise para resultados secundários (Sanchez et al., 2019) efetuada a partir dos dados coletados com a amostra do ensaio controlado randomizado, teve como objetivo investigar os efeitos mediadores das crenças normativas em relação ao uso de substâncias psicoativas. Para esse estudo, não foram encontradas evidências de diferenças nas crenças normativas ou no uso dessas substâncias entre os grupos de intervenção e controle. No entanto, houve uma clara associação entre crenças negativas sobre substâncias psicoativas e um menor consumo de maconha, e também entre crenças positivas sobre substâncias psicoativas e um maior consumo de maconha, independentemente do grupo designado.
Referências
Sanchez, ZM, Valente, JY, Sanudo, A, Pereira, APD, Cruz, JI, Schneider, D, & Andreoni, S (2017). The #Tamojunto Drug Prevention Program in Brazilian Schools: a Randomized Controlled Trial. Prevention Science, 18(7), 772–782.
Sanchez, ZM, Valente, JY, Sanudo, A, Pereira, APD, Schneider, DR, & Andreoni, S (2018). Effectiveness evaluation of the school-based drug prevention program #Tamojunto in Brazil: 21-month follow-up of a randomized controlled trial. International Journal of Drug Policy, 60(August 2017), 10–17.
Gusmões JDSP, Sañudo A, Valente JY, Sanchez ZM. Violence in Brazilian schools: Analysis of the effect of the #Tamojunto prevention program for bullying and physical violence. J Adolesc. 2018 Feb;63:107-117.
Cogo-Moreira H, Gusmões JD, Valente JY, Eid M, Sanchez ZM. Does #Tamojunto alter the dynamic between drug use and school violence among youth? Secondary analysis from a large cluster-randomized trial. Eur Child Adolesc Psychiatry. 2023 Feb;32(2):293-302.
Reis LF, Valente JY, Sanchez ZM, Surkan PJ. Effects of a School-Based Drug Prevention Program on Sexual Risk Behavior Among Adolescents in Brazilian Schools. Arch Sex Behav. 2021 Aug;50(6):2371-2382.
Sanchez ZM, Valente JY, Fidalgo TM, Leal AP, Medeiros PFP, Cogo-Moreira H. The role of normative beliefs in the mediation of a school-based drug prevention program: A secondary analysis of the #Tamojunto cluster-randomized trial. PLoS One. 2019 Jan 7;14(1):e0208072.
Referências que não foram incluídas no processo de avaliação
Vadrucci S, Vigna-Taglianti FD, van der Kreeft P, Vassara M, Scatigna M, Faggiano F, Burkhart G; EU-Dap Study Group. The theoretical model of the school-based prevention programme Unplugged. Glob Health Promot. 2016 Dec;23(4):49-58.
Faggiano F, Galanti MR, Bohrn K, Burkhart G, Vigna-Taglianti F, Cuomo L, Fabiani L, Panella M, Perez T, Siliquini R, van der Kreeft P, Vassara M, Wiborg G; EU-Dap Study Group. The effectiveness of a school-based substance abuse prevention program: EU-Dap cluster randomised controlled trial. Prev Med. 2008 Nov;47(5):537-43.
Gabrhelik R, Duncan A, Miovsky M, Furr-Holden CD, Stastna L, Jurystova L. "Unplugged": a school-based randomized control trial to prevent and reduce adolescent substance use in the Czech Republic. Drug Alcohol Depend. 2012 Jul 1;124(1-2):79-87.
Sanchez, ZM, Sanudo, A, Andreoni, S, Schneider, D., Pereira, APD, & Faggiano, F (2016). Efficacy evaluation of the school program Unplugged for drug use prevention among Brazilian adolescents. BMC Public Health, 16(1), 1206.
Medeiros, PFP, Cruz, JI, R. Schneider, D, Sanudo, A, & Sanchez, ZM (2016). Process evaluation of the implementation of the Unplugged Program for drug use prevention in Brazilian schools. Substance Abuse Treatment, Prevention, and Policy, 11(1), 2.
Dusenbury, L, Brannigan, R, Falco, M, & Hansen, WB (2003). A review of research on
fidelity of implementation: Implications for drug abuse prevention in school settings.
Health Education Research, 18(2), 237–256.