Compreender o fenómeno da droga na Europa em 2024 — principais desenvolvimentos (Relatório Europeu sobre Drogas de 2024)

cover of european drug report 2024 commentary

A análise mais recente do EMCDDA sobre o fenómeno das drogas na Europa revela um mercado simultaneamente resiliente e influenciado pelos desenvolvimentos em curso a nível mundial. Os problemas de saúde e segurança persistentes colocados pelas drogas ilícitas tradicionais e mais recentes — e, cada vez mais, a interação entre si — criam um contexto político difícil para a conceção e implementação de respostas eficazes. O Relatório Europeu sobre Drogas de 2024 traça um retrato da situação das drogas na Europa com base nos últimos dados disponíveis. A presente secção introdutória formula um breve comentário analítico sobre algumas das questões importantes que constam atualmente da agenda europeia de políticas em matéria de droga.

Esta página faz parte do Relatório Europeu sobre Drogas de 2024, a síntese anual do EMCDDA sobre a situação das drogas na Europa.

Última atualização: 11 de junho de 2024

EM TODO O LADO, TUDO, TODOS

Resposta à evolução dos problemas associados às drogas na Europa

Uma das principais mensagens da análise do Relatório Europeu sobre Drogas de 2024 é que o impacto do consumo de drogas ilícitas se verifica agora quase em todo o lado na nossa sociedade. Quase tudo o que tem propriedades psicoativas tem potencial para ser utilizado como droga. Significa isto que todos, direta ou indiretamente, podem ser afetados pelo consumo de drogas ilícitas e pelos problemas que lhe estão associados.

Em todo o lado

A puddle of water with light reflections on wet sand

Atualmente, as questões relacionadas com as drogas têm um impacto em quase todo o lado. A nível interno, manifestam-se e agravam outros problemas políticos complexos, como o problema dos sem-abrigo, a gestão das perturbações psiquiátricas e a criminalidade juvenil. Em alguns países, observamos também níveis mais elevados de violência e corrupção impulsionados pelo mercado de drogas. A nível internacional, os problemas relacionados com as drogas estão a aumentar em muitos países de baixo e médio rendimento, prejudicando a governação e o desenvolvimento e agravando os desafios já consideráveis que muitos países enfrentam em matéria de saúde pública e segurança.

Tudo

Colour splashes on a window

Observamos cada vez mais que quase tudo o que tem propriedades psicoativas pode aparecer no mercado de drogas, muitas vezes com rótulos errados ou em misturas, deixando os consumidores potencialmente inconscientes do que estão a consumir, aumentando os riscos para a saúde e criando novos desafios em termos de aplicação da lei e de regulamentação.

 

 

Todos

A crowd of people facing a stage with their arms in the air

O impacto dos desenvolvimentos a que estamos a assistir significa que todos são, de alguma forma, suscetíveis de serem afetados pelo consumo de drogas ilícitas, pelo funcionamento do mercado de drogas e pelos problemas que lhe estão associados. Diretamente, vemos isto nas pessoas que desenvolvem problemas e necessitam de tratamento ou outros serviços. Indiretamente, vemos isto no recrutamento de jovens vulneráveis para a criminalidade, na pressão sobre os orçamentos da saúde e nos custos sociais para as comunidades que se sentem inseguras ou em que as instituições ou empresas são prejudicadas pela corrupção ou por práticas criminosas.

Agência da União Europeia sobre Drogas — dotar a Europa de uma maior capacidade de resposta eficaz a um fenómeno das drogas mais complexo e em rápida mutação

photos of light beams creating a network

Desde a fundação do EMCDDA em 1993, a extensão e a natureza do fenómeno das drogas mudaram significativamente. Para enfrentar os novos desafios colocados pelas questões contemporâneas das drogas, o mandato da agência foi revisto e, em 2 de julho de 2024, o Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência passará a ser a Agência da União Europeia sobre Drogas (EUDA). 

A EUDA apoiará a União Europeia e os seus Estados-Membros através da melhoria e da expansão da monitorização do consumo de drogas e dos problemas relacionados com as drogas, do aumento da nossa preparação para identificar e responder a novas ameaças e do investimento no desenvolvimento de competências. Estas ações contribuirão para a realização de melhores intervenções tanto nos domínios da saúde como da segurança.

A EUDA prestará serviços em quatro áreas que se sobrepõem: antecipação de desafios novos e futuros; identificação e emissão de alertas sobre riscos emergentes e ameaças relacionadas com as drogas; avaliação das necessidades e das respostas disponíveis; e assistência às partes interessadas através da avaliação e divulgação de novos conhecimentos e boas práticas. 

A recolha, análise e divulgação de dados permanecem tarefas fundamentais da EUDA, sendo acrescidas novas competências, nomeadamente, um maior investimento na compreensão e na resposta aos problemas decorrentes do policonsumo de drogas e o reforço da capacidade analítica através da criação de uma nova rede de laboratórios forenses e toxicológicos. A EUDA desenvolverá um novo sistema europeu de alerta sobre drogas para alargar o atual trabalho do nosso Sistema de Alerta Rápido sobre novas substâncias psicoativas e complementá-lo com novas capacidades de avaliação de ameaças à saúde e à segurança. Será também concedido um maior investimento à identificação de lacunas e necessidades de investigação e os exercícios regulares de previsão e análise ajudarão a aumentar a preparação da UE para responder aos desafios futuros no domínio das drogas. A EUDA continuará a trabalhar em estreita parceria com a rede Reitox de pontos focais nacionais sobre drogas, cujo papel será reforçado. Será prestado apoio à avaliação e ao desenvolvimento de políticas baseadas em dados concretos, estando a agência em condições de investir mais no apoio às necessidades políticas a nível da UE nas suas atividades. A agência poderá também fazer mais para desenvolver e promover intervenções baseadas em dados concretos e boas práticas, desempenhar um papel internacional mais forte e apoiar a União Europeia na política em matéria de drogas a nível multilateral.

A situação das drogas na Europa em 2024 — Uma panorâmica

Elevada disponibilidade de uma gama mais vasta de substâncias frequentemente mais potentes

powder and pills on a green background

A análise dos indicadores relacionados com a oferta de drogas ilícitas de uso corrente na União Europeia sugere que a disponibilidade continua a ser elevada em quase todos os tipos de substâncias. Além disso, as informações disponíveis sugerem que o mercado se caracteriza, hoje, pela disponibilidade generalizada de uma gama mais ampla de drogas do que antes, com substâncias frequentemente disponíveis em formas, misturas ou combinações novas, de elevada potência ou pureza. Estas incluem substâncias novas, em que tanto o conhecimento dos consumidores como os conhecimentos científicos sobre os riscos para a saúde podem ser limitados. Existe uma diversidade crescente nas formas em que as substâncias podem estar disponíveis no mercado e, em alguns casos, como a canábis, por exemplo, nas vias de administração através das quais podem ser consumidas, com o aparecimento de produtos comestíveis e de várias formas de tecnologias de vapeamento. Com esta evolução, aumentam as preocupações de que os riscos associados a algumas substâncias possam estar a agravar-se. Em particular, as pessoas que consomem drogas podem ser colocadas em maior risco de sofrer problemas de saúde, incluindo intoxicação potencialmente fatal, através do consumo, possivelmente sem saber, de substâncias de maior potência ou mais inovadoras.

As infraestruturas comerciais estão associadas à elevada disponibilidade de drogas

No caso das substâncias traficadas para a União Europeia, um importante fator de aumento da disponibilidade é a capacidade dos grupos criminosos para explorar as oportunidades oferecidas pelas modernas infraestruturas de transporte comercial. Quase 70 % das apreensões de droga pelas autoridades aduaneiras ocorrem nos portos da União Europeia, com apreensões de grandes volumes de droga, em especial cocaína, detetadas em contentores de transporte intermodal. Por exemplo, em 2023, a Espanha comunicou a sua maior apreensão de sempre de cocaína numa única remessa, com 9,5 toneladas de droga escondida em bananas originárias do Equador. Os grandes portos da Bélgica e dos Países Baixos também são regularmente visados por organizações de tráfico e existem preocupações de que os portos de menor dimensão noutros países da Europa estejam agora cada vez mais ameaçados.

Os métodos utilizados pelos grupos criminosos que operam neste domínio tornaram-se cada vez mais sofisticados, com casos bem documentados de infiltração nas cadeias de abastecimento e de exploração de pessoal-chave através da intimidação e da corrupção. Em resposta a esta situação, o Roteiro da UE contra o Tráfico de Droga de 2023 inclui medidas para reforçar a gestão dos riscos aduaneiros e a deteção de drogas e precursores químicos traficados, incluindo o apoio à implantação de equipamento avançado de controlo de contentores e o aumento da interoperabilidade dos sistemas de informação aduaneira da UE. O Roteiro apoia igualmente a recém-criada Aliança Europeia dos Portos, uma parceria público-privada, que inclui ações destinadas a aumentar a resiliência dos principais centros logísticos da Europa ao tráfico de droga e à infiltração de grupos criminosos organizados.

Aumentam as preocupações políticas relativas à violência relacionada com a droga e a exploração de menores

blurry picture of gun pointing at viewer

É cada vez maior a preocupação de que, em consequência da elevada disponibilidade de drogas, do tráfico de grandes volumes e da concorrência entre grupos criminosos na Europa, alguns países estejam a registar um aumento da violência e de outras formas de criminalidade ligadas ao funcionamento do mercado de drogas. Historicamente, o maior peso da criminalidade violenta associada ao mercado de drogas foi suportado pelos países produtores e de trânsito fora da União Europeia, o que continua a ser o caso. No entanto, na Europa, em especial nos países onde se sabe que entram ou que são produzidos grandes volumes de drogas, parecem estar a aumentar os níveis de violência associados ao tráfico de droga. A par disto, estão também a aumentar as preocupações com o recrutamento e a exploração de jovens por parte das redes criminosas envolvidas no tráfico de drogas ilícitas. Este facto reflete-se na crescente prioridade que os serviços responsáveis pela aplicação da lei atribuem à luta contra estas ameaças. Atualmente, a monitorização das tendências e da evolução da criminalidade relacionada com as drogas a nível europeu constitui um desafio. Em resposta a esta situação, o EMCDDA tem investido na melhoria dos instrumentos de monitorização neste domínio, como é o caso, por exemplo, de trabalhos recentes para desenvolver um indicador de homicídios relacionados com as drogas. A EUDA, trabalhando em estreita parceria com a Europol e a Comissão Europeia, investirá mais nesta área no futuro, uma vez que uma base de informações sólidas é provavelmente um pré-requisito para a conceção de estratégias de intervenção eficazes para combater a violência, a corrupção e a exploração criminosa cada vez mais associadas ao funcionamento de alguns mercados atuais de droga europeus.

O policonsumo de drogas e a venda incorreta de drogas aumentam os riscos para a saúde

patients in hospital corridor

O policonsumo de drogas é o consumo de duas ou mais substâncias psicoativas, lícitas ou ilícitas, simultaneamente ou sequencialmente. Uma questão conexa é que possam ser vendidas substâncias que contenham uma ou mais drogas diferentes daquelas que o comprador estava à espera, quer numa mistura com a substância que pretendiam adquirir, quer em substituição da mesma. Isto significa que os consumidores podem não saber que substância ou substâncias estão realmente a consumir. O consumo combinado de drogas pode aumentar o risco de problemas de saúde e complicar a realização de intervenções eficazes, um problema, por exemplo, na resposta a intoxicações agudas.

Uma das principais mensagens do Relatório Europeu sobre Drogas deste ano é que o policonsumo de drogas é comum entre os consumidores de substâncias psicoativas, podendo este tipo de consumo aumentar os riscos de problemas de saúde graves. Os desafios nesta área também parecem estar a aumentar, por um lado, devido à maior integração no mercado de drogas ilícitas estabelecidas e de novas substâncias psicoativas e, por outro lado, devido à maior disponibilidade e utilização de substâncias sintéticas. As preocupações nesta área incluem os produtos de canábis adulterados com canabinoides sintéticos, os produtos vendidos como MDMA, mas que por vezes contêm catinonas sintéticas como adulterantes, e o aparecimento de opiáceos sintéticos altamente potentes misturados com outras substâncias ou que são vendidos como sendo outras substâncias. É igualmente importante notar que o consumo combinado de álcool com drogas ilícitas também pode aumentar os riscos para a saúde, por exemplo, quando o álcool é tomado em combinação com cocaína, opiáceos ou benzodiazepinas novas ou «de rua».

São necessárias fontes novas e inovadoras de dados forenses e toxicológicos

Man in laboratory carrying out liquid chromotography-masse spectrometer

Um dos desafios que a monitorização das drogas enfrentará em 2024 reside em compreender melhor quais as drogas que estão efetivamente a ser consumidas e em que combinações. Reforçar a monitorização dos padrões de policonsumo de drogas e aumentar a compreensão que temos sobre o que constitui intervenções eficazes neste domínio serão, por conseguinte, prioridades para o futuro trabalho da EUDA. A melhoria das fontes de dados toxicológicos e forenses e das informações que estes fornecem será um elemento fundamental para se obter uma melhor compreensão das substâncias que estão a ser vendidas no mercado e quais as drogas ou combinações de drogas particularmente associadas a danos. Além disso, a EUDA continuará a investir no desenvolvimento de novas fontes de dados que possam fornecer uma imagem mais pormenorizada dos padrões de consumo de drogas, como os dados provenientes de serviços de testes de drogas ou de estudos de monitorização de seringas. Por exemplo, são frequentemente detetadas várias substâncias em seringas usadas recolhidas em locais de troca de seringas, incluindo muitas vezes estimulantes e opiáceos, o que sugere que estas classes de drogas são habitualmente utilizadas em conjunto nas cidades europeias.

Responder a um conjunto mais diversificado e complexo de necessidades

Apoiar a implementação da prevenção da utilização de substâncias baseada em provas

Back view, positive teenage boys and girls standing by urban street railing outdoors

A prevenção do consumo de substâncias visa parar ou adiar o consumo de drogas psicoativas. Pode também ajudar as pessoas que tenham começado a consumir substâncias a evitar o desenvolvimento de perturbações relacionadas com o consumo de drogas. No entanto, nem todas as abordagens utilizadas neste domínio foram consideradas eficazes, tendo vindo a aumentar o interesse na identificação e aplicação de programas de prevenção baseados em provas. A consecução deste objetivo é agora apoiada pela criação de registos de programas de prevenção, iniciativas de formação e o desenvolvimento de normas de qualidade. O Currículo de Prevenção da União Europeia foi concebido para melhorar a eficácia global dos esforços de prevenção. Mais de 25 Estados-Membros da UE e países vizinhos já dispõem de formadores nacionais do Currículo de Prevenção da União Europeia. Os esforços de prevenção são também apoiados pelo Xchange, um registo europeu em linha das intervenções de prevenção avaliadas. Apesar da disponibilidade de ferramentas de elevada qualidade para ajudar a identificar programas suscetíveis de serem eficazes, em muitos países ainda há falta de investimento no trabalho de prevenção da toxicodependência ou provas de que os recursos não estão a ser utilizados de forma eficiente através do investimento em programas que carecem de provas sólidas da eficácia.

Uma maior diversidade de substâncias injetadas aumenta os riscos para a saúde

hand holding a syringe

Garantir uma resposta eficaz e abrangente para as pessoas que consomem drogas por via injetável na Europa continua a ser uma questão fundamental para a política e a prática, se quisermos reduzir os danos relacionados com as drogas. No entanto, os desafios nesta área estão a tornar-se mais complexos, uma vez que os dados aqui apresentados sublinham a crescente diversidade de substâncias injetadas na Europa, diversidade esta que pode estar associada a um maior risco.

As pessoas que consomem drogas por via injetável correm frequentemente maiores riscos de danos, como, por exemplo, infeções transmitidas por via sanguínea ou morte provocada por sobredosagem de drogas, do que as que utilizam outras vias de administração. O consumo de drogas injetáveis pode também agravar problemas de saúde pré-existentes ou causar abcessos, septicemia e lesões nervosas. Embora tenha continuado a diminuir na Europa ao longo da última década, o consumo de drogas injetáveis continua a ser responsável por uma parte desproporcionada dos danos agudos e crónicos para a saúde resultantes do consumo de substâncias.

A heroína sempre foi a principal droga associada à injeção na Europa, mas os dados relativos aos resíduos de seringas aqui comunicados ilustram a forma como os padrões de consumo intravenoso se tornaram variáveis e complexos. Uma vasta gama de drogas, incluindo anfetaminas, cocaína, catinonas sintéticas, medicamentos agonistas de opiáceos, outros medicamentos e várias novas substâncias psicoativas, são detetadas nos resíduos das seringas, frequentemente em combinação, aumentando potencialmente o risco de overdose. Os estudos de monitorização de seringas corroboram outros dados que sugerem que a injeção de estimulantes, em particular, se tornou mais comum entre as pessoas que injetam drogas. Este é um facto preocupante, uma vez que a injeção de estimulantes está associada tanto ao consumo mais frequente de drogas injetáveis como a vários surtos locais de VIH comunicados na Europa ao longo da última década. Nos dados mais recentes, continuam a ser comunicados surtos locais de VIH ligados à injeção de estimulantes, incluindo um surto em Monza, Itália, em 2022.

As abordagens de redução dos danos são consideradas fundamentais para reduzir a transmissão do VIH entre as pessoas que consomem drogas injetáveis, em especial o fornecimento de equipamento de injeção esterilizado, incluindo a distribuição tanto nas prisões como através de farmácias. Mais uma vez, no entanto, a nossa análise indica que a cobertura e o acesso a programas de distribuição gratuita de agulhas e seringas continuam a ser inadequados em muitos países da UE.

As notificações de VIH regressam aos níveis pré-pandémicos

hand inserting a syringe in a yellow syringe container

Embora as novas infeções por VIH relacionadas com o consumo de drogas injetáveis tenham vindo a diminuir na União Europeia a longo prazo, mais de metade dos países que comunicaram dados registaram um aumento das novas notificações de VIH em 2022, em comparação com 2021. Em 2022, o número de novas notificações de VIH relacionadas com o consumo de drogas injetáveis na União Europeia aumentou para 968, em comparação com 662 no ano anterior, regressando a um nível semelhante ao observado em 2019. Este aumento pode, em parte, refletir o aumento das taxas de testes de VIH na sequência do levantamento das restrições relacionadas com a COVID-19 e do regresso dos serviços de saúde, incluindo os testes de VIH, ao funcionamento antes da pandemia. Outro possível fator contributivo é a deslocação, entre países europeus, de pessoas que vivem com um diagnóstico conhecido de VIH após a invasão russa da Ucrânia. Independentemente da sua causa, esta constatação merece uma investigação mais aprofundada, uma vez que as eventuais alterações na tendência descendente a longo prazo observada neste conjunto de dados constituem uma preocupação. Além disso, embora a União Europeia se compare favoravelmente com muitas outras regiões do mundo, a redução de 38 % nas notificações de VIH desde 2010 fica aquém do objetivo da Organização Mundial de Saúde (OMS) de uma redução de 75 %, o que indica que é necessário fazer mais para eliminar a transmissão do VIH relacionada com drogas na Europa.

Sinais de que a cetamina está cada vez mais disponível e pode estar a causar danos

White powder and vial with a liquid

Parte da missão da nova EUDA consistirá em alargar a nossa capacidade de monitorização a substâncias mais inovadoras que atualmente não estão suficientemente visíveis nos conjuntos de dados utilizados na monitorização de rotina das drogas. Um bom exemplo é a cetamina. Embora limitados, os dados sugerem que é provável que esta droga esteja sistematicamente disponível em alguns mercados nacionais de droga e possa ter-se afirmado como droga de eleição em alguns contextos. No entanto, apesar de existirem indícios de que a cetamina é amplamente utilizada por alguns grupos de jovens, não temos uma boa compreensão dos padrões de utilização desta substância.

Embora não necessariamente representativa a nível europeu, a quantidade de cetamina apreendida e comunicada ao Sistema de Alerta Rápido da UE sobre novas substâncias psicoativas variou ao longo do tempo, mas manteve-se nos últimos tempos em níveis relativamente elevados, com as apreensões notificadas a aumentarem de pouco menos de uma tonelada em 2021 para 2,8 toneladas em 2022. Considera-se que a maior parte da cetamina apreendida na Europa tem origem na Índia, mas o Paquistão e a China também podem ser países de origem desta substância.

A cetamina pode ser utilizada isoladamente ou em combinação com outras substâncias. Em 2022, os dados dos serviços de urgência dos hospitais que participavam na rede Euro-DEN Plus indicaram que a cocaína foi a substância mais frequentemente notificada em combinação com a cetamina em apresentações de toxicidade aguda.

A cetamina é normalmente aspirada, mas também pode ser injetada. Tem sido associada a vários danos agudos e crónicos em função da dose, incluindo toxicidade neurológica e cardiovascular, problemas de saúde mental e complicações urológicas, tais como danos na bexiga resultantes da utilização intensiva ou da presença de adulterantes. Hoje, ainda é limitada a nossa compreensão da medida em que esta droga está associada a danos significativos na Europa, havendo fortes razões para melhorar a monitorização da utilização de cetamina e dos danos conexos.

«Cocaína cor-de-rosa»: um exemplo de novas misturas de drogas sintéticas que estão a surgir no mercado da UE

photo of pink cocaine in powder and 2CB taken by the Spanish police (Guardia Civil) during a police operation

A cetamina pode também ser adicionada a outras misturas de drogas, incluindo pós e comprimidos de MDMA, aumentando potencialmente o risco de consumo inadvertido. As misturas vendidas como «cocaína cor-de-rosa» também podem conter cetamina. Este produto aparece em algumas partes do mercado de drogas da UE, mas tem uma história mais longa na América Latina, onde foi frequentemente relatado que contém a substância 2CB, o que se reflete no nome alternativo de rua «tucibi». No entanto, na Europa, foi encontrada uma série de substâncias sintéticas, entre as quais a cetamina e a MDMA, neste produto de cor brilhante e distintiva. Em muitos aspetos, a cocaína cor-de-rosa é um exemplo da comercialização mais sofisticada de substâncias sintéticas junto dos consumidores, que provavelmente têm muito pouca noção dos produtos químicos que estão realmente a consumir.

A resposta da Europa à canábis

A necessidade de compreender melhor quais as respostas mais eficazes para o tratamento dos problemas relacionados com a canábis

doctor holding a tablet in a blurred hospital background

A canábis continua a ser a droga ilícita mais consumida na União Europeia, com uma prevalência de consumo cerca de cinco vezes superior à da substância seguinte (Síntese de números). O consumo de canábis está associado a uma série de problemas de saúde física e mental; pensa-se que a iniciação precoce, o consumo regular e prolongado e o consumo de doses elevadas aumentam os riscos. Contudo, continua a ser necessária uma melhor compreensão dos tipos de problemas vividos pelos consumidores de canábis, bem como do que pode constituir vias de referenciação adequadas e opções de tratamento eficazes para aqueles que procuram ajuda para o seu consumo de canábis. A canábis é responsável por mais de um terço de todas as entradas em tratamentos da toxicodependência comunicadas na Europa. Esta constatação é difícil de interpretar, em parte devido à grande variedade de intervenções fornecidas aos consumidores de canábis, que podem incluir intervenções breves e encaminhamentos diretivos do sistema de justiça penal. É necessário prosseguir os trabalhos para compreender melhor os tipos de serviços oferecidos às pessoas com problemas relacionados com canábis. No entanto, as informações existentes sugerem que são geralmente oferecidos tratamentos psicossociais, como a terapia cognitiva comportamental, e que as intervenções de saúde em linha estão a ficar cada vez mais disponíveis.

A avaliação do risco de danos associados ao consumo de canábis é dificultada pela gama aparentemente crescente de produtos à base de canábis potencialmente disponíveis para os consumidores, que podem incluir produtos comestíveis, várias formas de tecnologias de vapeamento, produtos de alta potência e vários derivados da droga. Esta diversidade pode ter implicações para o risco de um indivíduo ter problemas com o seu consumo de canábis, mas estas são pouco conhecidas. Por conseguinte, este continua a ser um domínio que exige maior investigação e atenção regulamentar.

A monitorização e a avaliação são fundamentais para avaliar o impacto das alterações políticas relacionadas com a canábis

person working on a laptop

Alguns Estados-Membros da UE alteraram, ou estão a considerar alterar, a sua abordagem à regulamentação do consumo recreativo de canábis, criando a possibilidade de um maior acesso à droga para alguns consumidores ou em determinadas condições. Em dezembro de 2021, Malta legislou no sentido de permitir o cultivo doméstico e o consumo de canábis em privado, juntamente com clubes de cultivo comunitários sem fins lucrativos. Em julho de 2023, o Luxemburgo legislou no sentido de permitir o cultivo doméstico e o consumo privado e, em fevereiro de 2024, a Alemanha legislou no sentido de permitir o cultivo doméstico e os clubes de cultivo de canábis sem fins lucrativos. A República Checa também anunciou planos para um sistema de distribuição regulado e tributado.

O cultivo, a venda e a posse de canábis continuam a ser infrações penais nos Países Baixos. No entanto, a venda de pequenas quantidades de canábis a adultos (com mais de 18 anos) em coffeeshops é tolerada há décadas. Um dos objetivos políticos desta tolerância era separar o mercado da canábis do mercado de outras drogas. Uma preocupação com esta abordagem é o facto de a canábis vendida nos coffeeshops ser fornecida pelo mercado ilegal, o que faz com que os grupos criminosos beneficiem deste comércio. Para resolver este problema, os Países Baixos estão a testar um modelo fechado de cadeia de abastecimento de canábis, em que a canábis vendida em coffeeshops é produzida em instalações regulamentadas. 

É provável que, na Europa e noutras partes do mundo, se mantenha o atual debate público e político dinâmico sobre a forma como a canábis deve ser regulamentada. Os grandes mercados comerciais desta droga que existem na América do Norte e noutros países já estão a impulsionar a inovação e, provavelmente, a influenciar indiretamente a gama mais vasta de produtos de canábis atualmente disponíveis no mercado europeu. Não é clara a direção que as futuras políticas europeias irão tomar. Porém, o que é evidente é que o desenvolvimento de políticas neste domínio deverá ser acompanhado de uma avaliação do impacto das alterações introduzidas. Este tipo de avaliação dependerá da existência de bons dados de base, sublinhando mais uma vez a necessidade de melhorar a nossa monitorização dos atuais padrões de consumo da droga ilícita mais consumida na Europa.

A evolução dos mercados de canábis cria novos desafios para as políticas em matéria de drogas

HHC Gummies Cola taste’ containing teddy bear-shaped HHC-infused gummies, seized by Swiss customs in October 2022.

A diversidade de produtos de canábis disponíveis na Europa está a aumentar. Isto é válido para o mercado de drogas ilícitas. O mesmo se aplica ao mercado de consumo, onde estão a aparecer produtos que contêm baixos níveis de THC, ou outras substâncias que podem ser derivadas da planta da canábis, como o CBD, ou ambos. No mercado das drogas ilícitas, a disponibilidade de extratos e produtos comestíveis de elevada potência é particularmente preocupante e tem sido associada a casos de intoxicação aguda nos serviços de urgência hospitalar. Além disso, existem preocupações de que alguns produtos vendidos no mercado ilícito como canábis possam ser adulterados com canabinoides sintéticos potentes.

Alguns canabinoides semissintéticos também apareceram recentemente no mercado comercial em algumas partes da Europa. Provavelmente, o canabinoide semissintético mais frequentemente encontrado é o hexa-hidrocanabinol (HHC), mas também, mais recentemente, o hexa-hidrocanabiforol (HHC-P) e o tetra-hidrocanabiforol (THCP) passaram a estar disponíveis comercialmente em alguns Estados-Membros da UE. Estas substâncias são vendidas como alternativas alegadamente «legais» à canábis, o que agrava os desafios regulamentares neste domínio. Embora o conhecimento dos efeitos do HHC nos seres humanos seja limitado, são manifestadas preocupações à medida que surgem os estudos, incluindo alguns relatos de ligações à psicose. Também foram registados casos de intoxicação de crianças provocados pelo consumo de produtos comestíveis que contêm HHC.

A cocaína e os estimulantes sintéticos desempenham um papel mais importante nos problemas de consumo de drogas na Europa

Pelo sexto ano consecutivo, são apreendidas quantidades recorde de cocaína na Europa

'Operation Nano’, 9.5 tonnes of cocaine seized August 2023, Port of Algeciras (Cadiz), Policía Nacional and the Spanish Customs Surveillance Force (SVA-DAVA), Spain

em 2022, os Estados-Membros da UE apreenderam novamente quantidades recorde de cocaína, que ascendem a, pelo menos, 323 toneladas. As apreensões europeias ultrapassam atualmente as dos Estados Unidos, tradicionalmente um país considerado como sendo um dos maiores mercados para esta droga. A cocaína entra na Europa por várias rotas, mas o tráfico de grandes volumes de cocaína através dos portos marítimos europeus em contentores de navegação comercial intermodal continua a ser um fator significativo para a sua elevada disponibilidade.

O tráfico de drogas ilícitas é altamente dinâmico e adapta-se rapidamente aos desenvolvimentos geopolíticos, aos conflitos regionais e às mudanças nas rotas comerciais. Todos os desenvolvimentos na Colômbia, no Brasil e no Equador terão contribuído para o aumento observado no tráfico de cocaína para a União Europeia. Com as medidas de proibição intensificadas nos principais pontos de entrada de drogas conhecidos, os traficantes parecem visar cada vez mais portos mais pequenos noutros países da UE e nos países limítrofes da União Europeia, nos quais as medidas dissuasoras podem ser aplicadas de forma menos intensiva. Alguns países do norte da Europa, incluindo a Suécia e a Noruega, registaram um número recorde de apreensões de cocaína nos portos marítimos em 2023, o que sugere que todos os pontos de entrada na União Europeia já estão vulneráveis.

Os locais de produção de cocaína na Europa revelam como os grupos de tráfico estão a inovar para evitar serem detetados 

Seizure of half a tonne of cocaine chemically concealed in 2,000 bags of charcoal seized by Garda National Drugs and Organised Crime Bureau, assisted by the Irish Navy and Customs and Revenue, 14 July 2021, Dublin Port, Ireland

A deteção regular de laboratórios de processamento de cocaína em grande escala em toda a Europa, especialmente na Bélgica, Espanha e Países Baixos, revela como as redes criminosas transnacionais de ambos os lados do Atlântico estão a trabalhar em conjunto para desenvolver novos métodos de tráfico de cocaína para a Europa. Este facto é visível na utilização de equipamento especializado e no envolvimento de químicos com experiência na dissimulação e no processamento da cocaína. O processamento de cocaína na Europa envolve geralmente a extração secundária de cocaína incorporada noutros materiais, com o objetivo de reduzir o risco de deteção quando é incluída em remessas comerciais de mercadorias legítimas. Estes métodos de tráfico vão desde a simples impregnação de cocaína num material até dissimulações químicas mais sofisticadas, em que a droga é incorporada numa variedade de plásticos, polímeros ou complexos metálicos.

Além disso, a pasta de coca e a cocaína-base também já são traficadas para a Europa, com as fases finais de transformação em cloridrato de cocaína a serem concluídas em laboratórios clandestinos. São desconhecidas as razões para isto, mas foi sugerido que pode ser uma resposta à relativa escassez de produtos químicos de transformação de cocaína na América Latina e à vantagem económica de controlar as fases finais do processo de produção na Europa.

O impacto da elevada disponibilidade de cocaína na saúde pública está a tornar-se mais visível

cocaine powder lines in a mirror

A cocaína é, a seguir à canábis, a segunda droga ilícita mais consumida na Europa. Há cada vez mais sinais de que a elevada disponibilidade desta droga continua a ter um impacto negativo crescente na saúde pública na Europa. Apesar de se observar uma considerável heterogeneidade geográfica nos dados, a cocaína em geral é a segunda droga ilícita mais frequentemente comunicada, tanto pelos que entram pela primeira vez nos serviços de tratamento da toxicodependência como nas informações mais limitadas disponíveis sobre apresentações de toxicidade de droga aguda em serviços de urgência hospitalar. Embora não sejam representativos a nível nacional, os serviços europeus de controlo de drogas assinalaram que a cocaína foi a substância mais comum que rastrearam em 2022. Os dados toxicológicos disponíveis sugerem que esta droga esteve envolvida em cerca de um quinto das mortes por overdose de drogas em 2022, muitas vezes em associação com outras substâncias. Além disso, uma vez que o consumo de cocaína pode agravar os problemas cardiovasculares subjacentes, uma das principais causas de morte na Europa, é provável que a contribuição global desta droga para a mortalidade não esteja a ser suficientemente reconhecida.

Os resíduos de cocaína nas águas residuais municipais também aumentaram dois terços das cidades, nos dados relativos a 2023 e 2022. Este facto, juntamente com outras informações, sugere que, à medida que a cocaína fica mais disponível, o mesmo acontece com a sua distribuição geográfica e social. É particularmente preocupante que, em alguns países, o consumo de cocaína pareça estar a aumentar entre os grupos mais marginalizados. Este facto contrasta com a perceção pública de que a droga é mais consumida por pessoas socialmente integradas e abastadas. A cocaína fumada e injetada está associada a problemas de saúde mais graves do que a insuflação nasal, pelo que é preocupante que a injeção de cocaína e o consumo de cocaína-crack estejam a aumentar em vários países. A cocaína-crack fumável é uma forma de droga associada a padrões mais problemáticos de consumo e utilização por grupos mais marginalizados. Tal como referido noutros pontos do presente relatório, a injeção de cocaína foi associada a vários surtos localizados de VIH na Europa nos últimos anos.

A Europa continua a ser um produtor significativo de drogas sintéticas

production laboratory of synthetic drugs, photo taken by the Belgian police

Embora a monitorização da atividade ilícita seja sempre um desafio, as informações disponíveis sugerem que a escala e a complexidade da produção de drogas ilícitas na Europa continuam a aumentar. Em 2022, foi comunicado o desmantelamento de centenas de instalações de produção de drogas sintéticas na União Europeia. Estas instalações produziam uma variedade de substâncias, incluindo anfetamina, metanfetamina, catinonas sintéticas e MDMA. Foram também descobertas instalações para as fases finais da produção de heroína. Além disso, a deteção regular de locais separados para a produção, extração, corte e embalagem de cocaína nos últimos anos sugere que a produção secundária de cocaína já está bem estabelecida em algumas partes da Europa, facilitando a utilização de métodos inovadores de dissimulação química e o tráfico desta droga para a Europa.

A inovação nos processos de produção é também sugerida pelas recentes apreensões de produtos químicos que podem ser utilizados para produzir os químicos precursores necessários ao fabrico de anfetamina, metanfetamina e MDMA, contornando assim os controlos em vigor para reduzir a disponibilidade destas drogas. 

Um desafio neste domínio é que a utilização de um conjunto mais diversificado de produtos químicos e a introdução de novas vias de síntese química significam que as autoridades aduaneiras, as autoridades responsáveis pela aplicação da lei e a regulamentação em vigor podem ter dificuldade em acompanhar a evolução do mercado. Além disso, nos locais em que se produzem ilicitamente drogas sintéticas, existe a consciência crescente dos riscos para a saúde pública e para o ambiente decorrentes da descarga ou da eliminação dos volumes frequentemente elevados de substâncias perigosas usadas no processo de produção de drogas.

A produção e o tráfico de metanfetamina destacam o potencial aumento do seu consumo na Europa

photo of methamphetamine

A nível mundial, os problemas com a metanfetamina parecem estar a aumentar e este estimulante sintético está a contribuir fortemente para os danos relacionados com as drogas em muitas partes do mundo. Na Europa, com a notável exceção de alguns países, a metanfetamina é um estimulante relativamente pouco utilizado. No entanto, as tendências no domínio das drogas são cada vez mais dinâmicas, podendo mudar rapidamente. Por conseguinte, é preocupante que existam alguns sinais de que o consumo de metanfetaminas possa estar a espalhar-se por mais países, mesmo que os níveis globais de consumo permaneçam baixos. Uma preocupação adicional reside nos sinais contínuos de produção na Europa. Embora o número de locais de produção de metanfetaminas desmantelados tenha diminuído ligeiramente em 2022, estes números globais flutuam de ano para ano, uma vez que refletem em grande medida numerosos «laboratórios de cozinha» de pequena escala. A produção de metanfetamina de baixo volume para consumo local é um fenómeno de longa data em partes da Europa, como a Chéquia, com populações estabelecidas que consomem esta droga. Mais recentemente, porém, há cada vez mais indícios da existência de instalações em grande escala, muitas vezes localizadas noutros locais da Europa, que produziram esta droga em grandes volumes para exportação para mercados fora da UE.

As apreensões de derivados glicídicos do BMK, um precursor utilizado para a produção de metanfetaminas em grande escala, aumentaram significativamente em 2022, tendo sido também apreendidos novos produtos químicos alternativos a partir dos quais é possível fabricar BMK. Além disso, continuaram a ser apreendidos grandes volumes de ácido tartárico. O ácido tartárico é utilizado na produção da forma potente e procurada de metanfetamina (d-metanfetamina, utilizada para o cristal meth). No seu conjunto, estas informações sugerem que a produção em grande escala de metanfetamina está hoje estabelecida na União Europeia. Atualmente, a produção nesta escala parece estar sobretudo destinada à exportação para mercados fora da UE. Este facto constitui uma preocupação em si mesmo, mas também representa um risco de que a utilização desta droga se torne mais comum na União Europeia, caso as condições do mercado o permitam.

As catinonas sintéticas representam um desafio cada vez maior

Drums containing 3-CMC and alpha-PHiP seized at Barcelona airport by Spanish Civil Guard Customs and Police – Spain, January 2022.

A natureza dinâmica do mercado europeu das drogas é evidenciada pelo aumento dos relatos sobre a produção e utilização de catinonas sintéticas, uma classe de drogas relativamente nova na Europa. Os dados aqui notificados continuam a indicar o tráfico de grandes volumes de catinonas sintéticas para a Europa a partir de países de origem, como a Índia. Ao mesmo tempo, há cada vez mais indícios de produção na União Europeia, nomeadamente na Polónia. A dimensão e a escala dos locais de produção comunicados como tendo sido desmantelados pelos serviços responsáveis pela aplicação da lei variam entre laboratórios relativamente pequenos, do tamanho de uma cozinha, e instalações capazes de produzir grandes quantidades destas substâncias. Tendo em conta os volumes de produtos químicos precursores atualmente apreendidos e a interceção de produtos químicos alternativos não regulamentados, afigura-se provável que esteja em curso uma produção em grande escala, tanto para os mercados europeus como externos.

Os desenvolvimentos na área dos opiáceos criam novos desafios tanto para as políticas em matéria de drogas como para os modelos de resposta

A presença de múltiplas substâncias na maioria das mortes por opiáceos merece mais atenção

Emergency vehicle driving fast on a blurred street

A observação de que os padrões de consumo de droga se estão a tornar mais dinâmicos e complexos surge novamente na nossa análise das mortes induzidas por drogas, por vezes designadas por «mortes por overdose». Os opiáceos continuam a ser o grupo de substâncias mais frequentemente implicado, mas são muitas vezes encontrados em combinação com outras substâncias, o que revela que os padrões de policonsumo de drogas são um importante fator impulsionador dos danos relacionados com as drogas na Europa As benzodiazepinas, o álcool ou a cocaína, por exemplo, são todos frequentemente notificados, juntamente com os opiáceos, nos dados toxicológicos disponíveis, sendo provável que o consumo concomitante destas diferentes classes de drogas seja um fator importante, mas nem sempre suficientemente reconhecido, para compreender e responder à mortalidade relacionada com drogas.

A nível da UE, as tendências recentes das mortes em que estão implicados opiáceos parecem estáveis, mas está a aumentar a proporção de mortes nos grupos etários mais velhos. Estima-se que a heroína esteve envolvida em mais de 1 800 mortes em 2022 na União Europeia, continuando a ser a droga mais frequentemente identificada em mortes relacionadas com opiáceos em alguns países da Europa Ocidental. Todavia, os dados disponíveis sugerem que a heroína está presente na maioria das mortes por overdose em apenas uma minoria de países, desempenhando outros opiáceos e outras drogas um papel mais importante. De um modo geral, a situação parece ser mais heterogénea do que no passado, com outros opiáceos que não a heroína, incluindo a metadona e, em menor grau, a buprenorfina, os medicamentos para alívio da dor que contêm opiáceos e outros opiáceos sintéticos mais inovadores a serem associados a uma percentagem substancial das mortes por overdose em alguns países.

Os dados disponíveis sugerem que as mortes em que estão implicados estimulantes estão a aumentar em alguns países. Contudo, a interpretação destes dados é difícil, tanto porque as mortes relacionadas com estimulantes são suscetíveis de ser particularmente propensas a subnotificação, como porque os estimulantes estão frequentemente implicados em mortes em que também se verificou a presença de outras drogas, incluindo opiáceos.

É cada vez maior a preocupação de que os opiáceos sintéticos altamente potentes constituam uma ameaça significativa para a saúde pública

emergency room

As mortes associadas à utilização de opiáceos constituem um importante problema de saúde pública na Europa, mas representam atualmente apenas uma pequena fração do número de mortes associadas a esta classe de drogas registadas na América do Norte. Tanto os Estados Unidos como o Canadá estão a viver uma emergência de saúde pública provocada pelos opiáceos sintéticos, principalmente derivados do fentanil. A situação na Europa é muito diferente. Embora seja provável que haja alguma subnotificação, os derivados de fentanilo só estiveram associados a 163 mortes em 2022. Estas mortes incluem também as mortes associadas ao fentanilo desviado do uso médico em vez de obtido no mercado ilícito.

Apesar desta diferença de escala, estão a crescer as preocupações de que os opiáceos sintéticos altamente potentes estejam a aparecer cada vez mais no mercado europeu de drogas e a causar danos. Além disso, ainda que diferente, o contexto norte-americano fornece um alerta sobre a rapidez com que as tendências de consumo de opiáceos se podem desenvolver, com implicações dramáticas para a saúde pública. Por conseguinte, é preocupante que 81 novos opiáceos sintéticos tenham sido notificados ao Sistema de Alerta Rápido da UE desde 2009, com o aparecimento de 7 novas substâncias em 2023. Seis destas eram opiáceos de nitazeno altamente potentes. Os nitazenos foram comunicados pela primeira vez ao EMCDDA por volta de 2019. Desde então, foram identificados 16 nitazenos na Europa, tendo a maioria dos países detetado uma destas substâncias no seu território.

O aparecimento de opiáceos de nitazeno já é associado a danos em alguns países

Photo with two recipients, one with nitazenes powder compared to brown heroin powder. Photo by Forensic Science Ireland

Os nitazenos são vendidos em preparações que se assemelham à heroína de rua ou em linha como «heroína sintética»; também aparecem em comprimidos vendidos erradamente como opiáceos medicinais ou outros medicamentos. Há também relatos de misturas para fumar adulteradas com nitazenos. Estas drogas estão associadas ao aumento do número de mortes induzidas pela droga na Estónia e na Letónia em 2023, onde são agora responsáveis por uma percentagem significativa de mortes por overdose. Foram também comunicados surtos localizados de intoxicações na Irlanda e em França em 2023. Na Irlanda, a venda de nitazenos erradamente como heroína resultou em múltiplas overdoses e esteve também associada a overdoses em duas prisões em 2024. Fora da União Europeia, os nitazenos foram associados a overdoses de droga na Austrália, na América do Norte e no Reino Unido. Estas drogas não figuram de forma proeminente nos dados de rotina disponíveis a nível da UE. No entanto, devido à sua elevada potência e novidade, receia-se que os opiáceos de nitazeno possam não ser detetados sistematicamente nos procedimentos habitualmente utilizados na toxicologia post mortem, o que aumenta a possibilidade de o número de mortes ou de intoxicações não fatais atribuídas a estas substâncias poder ser subestimado.

Estes desenvolvimentos estão a ocorrer no contexto de outros sinais recentes de mudanças preocupantes no mercado de opiáceos na Europa. Estas incluem o aparecimento, em 2021, da «tranq-dope», em que os opiáceos sintéticos são misturados com o sedativo e analgésico animal xilazina, e, em 2022, da «benzo-dope», em que os opiáceos sintéticos são misturados com novas benzodiazepinas (como o bromazolam). Estas misturas são frequentemente encontradas em partes da América do Norte, onde têm sido associadas a uma série de problemas de saúde.

Novos desafios para a política, a prática e a investigação

A emergência de opiáceos sintéticos novos e altamente potentes cria novos desafios para a política e a prática em matéria de drogas. Além disso, destaca importantes lacunas de conhecimento que exigem um escrutínio da investigação. Muitas destas substâncias não estão sujeitas ao controlo de drogas quando aparecem pela primeira vez. A este respeito, a Europa tem a sorte de ter criado, através do seu Sistema de Alerta Rápido, um mecanismo acelerado de identificação, avaliação dos riscos e controlo das drogas. No entanto, é fundamental que os Estados-Membros apoiem este mecanismo com medidas nacionais adequadas. Atualmente, a maioria dos novos opiáceos sintéticos parecem ser fornecidos a partir de países asiáticos. Por conseguinte, é provável que o acompanhamento multilateral seja importante. Sabe-se que existe alguma produção de derivados do fentanilo na Europa, mas, até à data, esta é limitada. No entanto, os obstáculos técnicos à produção destas substâncias são relativamente baixos, pelo que é imperativo refletir sobre medidas eficazes para prevenir a possibilidade da produção destas drogas em grande escala na União Europeia.

A experiência recente na União Europeia demonstrou como o aparecimento súbito de opiáceos sintéticos potentes pode resultar em múltiplas intoxicações num curto período de tempo, com potencial para sobrecarregar os serviços locais. A resiliência neste domínio pode ser aumentada através da existência de um plano de resposta rápida multiagências, que inclui uma componente eficaz de comunicação dos riscos, a fim de alertar tanto as pessoas em risco como os serviços de primeira linha. Além disso, os modelos de resposta neste domínio têm de ser alargados, reconhecendo que, como estas substâncias são vendidas como outras substâncias ou em misturas com essas, a população em risco não se restringe necessariamente às pessoas com um historial de consumo de opiáceos. Será também importante a capacidade de identificar rapidamente a presença de opiáceos altamente potentes nos mercados locais de drogas. Um requisito fundamental de modelos de resposta neste domínio será assegurar que os trabalhadores da linha da frente, como a polícia, o pessoal das ambulâncias e os prestadores de serviços de proximidade disponham de um abastecimento adequado de naloxona, um antagonista dos opiáceos, e que possam administrar este medicamento quando necessário. Por último, os dados de que dispomos na Europa sobre o que constitui uma resposta eficaz aos problemas dos opiáceos foi construída em grande medida com base na nossa experiência histórica de resposta aos problemas da heroína. Por conseguinte, é urgentemente necessária investigação para avaliar em que medida os nossos atuais modelos de resposta podem necessitar de ajustamento para se manterem adequados à sua finalidade no contexto da disponibilidade de opiáceos mais inovadores e altamente potentes, especialmente se estas substâncias aparecerem em misturas com outras drogas, como a xilazina.

Poderá uma diminuição da disponibilidade de heroína conduzir a um mercado mais vasto de opiáceos sintéticos?

photo of a poppy field

Em abril de 2022, os talibãs anunciaram a proibição do cultivo da papoila do ópio. Uma proibição semelhante, embora de curta duração, em 2001, viu a introdução de substâncias de substituição, incluindo estimulantes e opiáceos sintéticos, no mercado europeu. Estas alterações foram de curta duração na maioria dos países, mas observaram-se alterações a longo prazo no mercado de opiáceos num pequeno número de países. Sendo o Afeganistão a principal fonte da heroína consumida na Europa, especula-se que a recente proibição do ópio provoque escassez de heroína no futuro, o que poderá levar ao aumento da oferta de opiáceos sintéticos e da sua utilização na Europa.

O Gabinete das Nações Unidas contra a Droga e a Criminalidade (UNODC) estima que a produção de ópio caiu 95 % em 2023. Embora exista uma incerteza considerável nesta área, os dados disponíveis sugerem que continua a existir um importante stock de ópio no Afeganistão, o que poderá ajudar a explicar porque não observámos indícios de perturbações dos fluxos de heroína para a União Europeia. No entanto, poderão ter ocorrido alguns ajustamentos de mercado em resposta ao aumento notificado dos preços do ópio no Afeganistão. No momento da redação do presente documento, ainda é cedo para saber se a atual proibição da produção de ópio persistirá no tempo. No entanto, é prudente preparar-se para uma possível escassez de heroína em finais de 2024 ou 2025. Uma resposta imediata inclui garantir a disponibilidade de locais de tratamento de toxicodependência suficientes para as pessoas que procuram ajuda para gerir o consumo de opiáceos. É igualmente importante acompanhar de perto se as alterações na oferta de heroína têm impacto na disponibilidade ou na utilização de outras substâncias. As substâncias a considerar incluem opiáceos sintéticos potentes, mas também substâncias mais estabelecidas, como os estimulantes.

Poderá Mianmar substituir o Afeganistão como fonte de heroína para a Europa?

hand holding an opium poppy with cuts

Tradicionalmente, Mianmar é uma importante fonte de ópio e heroína, embora, de um modo geral, não o seja para os mercados europeus. Pensa-se que a heroína proveniente de Mianmar seja traficada para vários países na Ásia e na Oceânia. Após um período de declínio, há relatos de aumento do cultivo de ópio nos últimos três anos. O UNODC estima que Mianmar tenha produzido 1 080 toneladas de ópio em 2023, um aumento de 36 % em relação a 2022, mas ainda muito inferior às quantidades produzidas no Afeganistão nos últimos anos. Tendo em conta o valor potencial desta cultura para os traficantes quando a convertem em heroína e o aumento dos fluxos de comércio marítimo entre o Sudeste Asiático e a Europa, existe o risco potencial de, no futuro, uma parcela poder ser desviada para servir mercados rentáveis na Europa. A monitorização do eventual aparecimento de heroína proveniente desta região é, assim, justificada, mas permanece um desafio, dado o contexto de segurança em Mianmar, que está envolvido em guerra civil desde 2021. No entanto, a curto e médio prazo, parece pouco provável que a heroína produzida nesta região substitua os volumes de heroína até fornecidos até à data ao mercado europeu a partir do Afeganistão.

Num relance

Num relance — estimativas do consumo de droga na União Europeia
 

Dados de origem

Os dados utilizados para gerar as infografias e os gráficos desta página podem ser consultados abaixo.

Consumo de drogas na Europa, num relance dados de origem
Faixa etária Substância Consumo no último ano (milhões) Consumo no último ano (%) Estimativa nacional mais baixa (%) Estimativa nacional mais elevada (%) Consumo ao longo da vida (milhões) Consumo ao longo da vida (%)
Adultos (15-64) Anfetaminas 2.3 0.8     10.3 3.6
Jovens adultos (15-34) Anfetaminas 1.5 1.5 0 4    
Adultos (15-64) Canábis 22.8 8     85.4 29.9
Jovens adultos (15-34) Canábis 15.1 15 3.4 21.5    
Adultos (15-64) Cocaína 4 1.4     15.4 5.4
Jovens adultos (15-34) Cocaína 2.5 2.5 0.5 5.5    
Adultos (15-64) MDMA 2.9 1     12.3 4.3
Jovens adultos (15-34) MDMA 2.2 2.2 0.3 9.8    
Heroína e outros opiáceos na UE, em síntese
Característica Valor
Consumidores de opiáceos de alto risco 860 000
Terapia com agonistas de opiáceos (número de pessoas que recebem) 513 000
Opiáceos: percentagem de pedidos de tratamento de toxicodependência (%) 24
Outras drogas: percentagem de pedidos de tratamento de toxicodependência (%) 76
Opiáceos: percentagem de overdoses mortais (%) 74
Outras drogas: percentagem de overdoses fatais (%) 26

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